quinta-feira, 26 de abril de 2007

ONU sugere órgão fiscalizador

Relatora cobra mais recursos e faz crítica dura ao Ibama


Jamil Chade, GENEBRA


Em um documento enviado ao governo brasileiro, uma das principais relatoras das Nações Unidas, Hina Jilani, criticou a estrutura do Ibama e fez um alerta: sem recursos, o instituto não conseguirá cumprir seu papel. Para sanar o problema, a ONU sugere que o governo crie uma agência para monitorar os trabalhos do órgão.

A relatora conta ter recebido denúncias do envolvimento de funcionários do instituto no corte ilegal de madeira, além da informação de que eles até mesmo dificultam o trabalho dos ambientalistas. “Espero que nossas sugestões sejam consideradas”, afirmou a especialista, ao saber das mudanças planejadas para o Ibama.

De acordo com a relatora, que esteve no Brasil em 2005 para começar a elaborar o documento, parte da violência contra ativistas ambientais, indígenas e trabalhadores rurais ocorre porque os órgãos do governo responsáveis por lidar com essas áreas, principalmente o Ibama, não cumprem o seu papel.


RISCOS


Hina avaliou a situação no País após receber denúncia de que ativistas corriam risco de vida. Para ela, parte da insegurança seria resolvida se os órgãos públicos fizessem o seu trabalho. Ela critica, ainda, a falta de compromisso das autoridades. Para Hina, o Ibama não tem capacidade para dar resposta às denúncias.

A relatora da ONU destaca que ativistas acusam tanto o instituto como a Fundação Nacional do Índio (Funai) de criarem obstáculos aos ativistas. Para ela, diante do fraco desempenho das entidades, os ambientalistas lutam sozinhos por seus direitos. A relatora se diz alarmada com o número de assassinatos de ativistas e indica que um dos problemas é a “impunidade persistente”.

Hina insinua que a solução do caso da morte da religiosa Dorothy Stang, no Pará, em 2005, não é exemplo do que ocorre no País. Os dois pistoleiros já foram condenados e os acusados de encomendar o crime aguardam julgamento.

No relatório, ela relata conversa mantida com o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Ele teria dito que só casos de “alta visibilidade” são rapidamente julgados.


quarta-feira, 18 de abril de 2007

A Arte de Fazer um Blog


O tarimbado jornalista Ricardo Noblat fala do novo espaço para a informação

Engana-se quem acredita que blog é coisa só de adolescente. Tem gente, como o jornalista Ricardo Noblat, que fez do espaço semelhante a um diário uma nova opção de informação.
O experiente jornalista, que já passou pelas redações de jornais como o “Correio Brasiliense”, começou meio por acaso a “postar”. Assim que saiu das redações, Noblat fazia uma coluna dominical para o jornal carioca “O Dia”. Geralmente, os textos “perdiam a validade” ao longo da semana. Então, foi sugerido criar um blog. “No início, achava blog coisa de adolescente. Quando parei de escrever para ´O Dia` achei que o espaço na internet também deveria acaba, mas como estava desempregado, continuei. E deu certo, e pouco depois fechei contrato com o iG”, conta o jornalista.
Mas engana-se quem pensa que escrever no universo virtual é mais simples, mais calmo. Noblat diz que a rotina é ainda mais estressante, pois, como toda informação veiculada na internet, a atualização deve ser constante. “O blog é ágil, dá a notícia mais rápido”, enfatiza o jornalista, que destaca também que os erros são vistos com mais facilidade, “deve-se tomar muito cuidado com a barriga, pois os leitores avisam na mesma hora quando algo está errado”. Barriga é notícia falsa, informação errada.
Esta relação com o leitor também é diferente no universo virtual, que possibilita maior interação entre o jornalista e quem está navegando. “Os espaços dedicados ao leitor nos jornais impressos é limitado. O blog não tem este problema. E todos os comentários ficam anotados lá,além de sabermos melhor o perfil de nosso público”, enumera Ricardo Noblat.

Sucesso

E a fórmula tem dado certo. Os blogs jornalísticos são cada vez mais acessados, tanto no Brasil quanto no exterior. Para Noblat, um pioneiro no país, o Brasil está bem situado no universo dos blogs.
E alerta que esta é uma das tendências para o mercado profissional. O repórter cidadoa, que não é formado em Jornalismo, mas posta notícias em seu espaço, “mais dia, menos dia vai acontecer. As pessoas estão aptas e dispostas para fazer isto, e o blog é um grande espaço para o jornalismo comunitário”, afirma Ricardo Noblat.

Iraque postando...

O caso que deu maior visibilidade e credibilidade para as informações em blogs aconteceu durante a invasão norte-americana no Iraque. Salma Pax, um garoto que vive na capital iraquiana, mantinha desde setembro de 2002 um curioso diário na internet escrito em inglês.
Foi através dele que o Ocidente teve notícias mais verdadeiras do que realmente acontecia na terra de Sadam Hussein. Pax tornou-se “correspondente de guerra” porque contava, de dentro do olho do furacão e sem a censura norte-americana, os sofrimentos dos civis e a situação: como foram os bombardeios, que alvos atingiram e as dificuldades que já podem ser sentidas pelos iraquianos.
Com o título de “Where is Raed?”, o blog se tornou a principal referência. O endereço é http://dear_raed.blogspot.com/, mas a última postagem foi feita no dia 18 de agosto de 2004, numa frase curta que dizia que “Eu penso que o Hiatus é a palavra. Obrigado muito muito senhoras e cavalheiros”. Hiatus é quando você fica um tempo afastado do seu flog ou blog.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

"O impacto da internet na sociedade e na cultura", de Pierre Lévy



1) As tecnologias são produtos de uma sociedade e/ou de uma cultura?

As tecnologias são produtos de uma sociedade e de uma cultura. Não levaremos em consideração apenas as tecnologias que surgiram com a informática. O fogo foi uma tecnologia quando foi descoberto, e o que surgiu a partir dele foi produto desta inovação. Seja para sua própria sobrevivência ou para contar sua história, o ser humano sempre buscou aperfeiçoar-se e evoluir-se. As tecnologias também surgiram desta necessidade. Conforme constata Pierre Levy, a tecnologia seria uma fonte para aumentar o percentual de inteligência humana, principalmente através do armazenamento de informações. A energia para relembrar histórias e conhecimentos dos antepassados não seria mais gasta, pois a escrita foi inventada e todas estas informações estariam à sua disposição para consulta. Com isto, o homo sapiens estaria livre para utilizar seu tempo descobrindo novas tecnologias.

2) As tecnologias da informação têm o mesmo impacto na sociedade que outras tecnologias?

Não, apesar de toda nova tecnologia causa o impacto de estranheza e até medo, dependendo da sociedade que a recebe. As tecnologias da informação causaram uma revolução maior até nos costumes. Levy compara o advento da internet com a invenção da imprensa. A principal diferença de outras tecnologias comparadas com as tecnologias da informação é que a última pode desenvolver novas formas de conhecimento e aumentar o potencial de inteligência humana. As formas de relação também foram alteradas, pois agora não é mais necessária a presença física de outra pessoa para iniciarmos uma conversa ou até mesmo uma relação sexual.

3) A internet e as novas tecnologias em geral assustam, agridem ou resolvem?

Depende do ponto de vista e da maneira como são utilizadas. Para um trabalhador que vê a possibilidade de seu emprego ser feito por máquinas, estas novas tecnologias o assustam, pois teme perder o emprego. Para pessoas mais reservadas, elas agridem, pois a intimidade está muito mais exposta hoje. Não há fronteiras na internet e nem porta que não se abra. Em sites de relacionamento, por exemplo, pode-se denegrir a imagem de alguém através de um falso perfil, isso sem falar de alguns crimes que ganharam maior visibilidade por causa do aperfeiçoamento destas novas tecnologias, como a pedofilia pela rede. Em outros casos, elas podem resolver problemas, como facilitar o trabalho de alguma pessoa, localizar vítimas através de GPS, abreviar o tempo de espera na descoberta de novos remédios, etc. Se as tecnologias são boas ou más depende da escolha ética às quais são aplicadas.

4) Qual o caminho da sociedade e da cultura no próximo milênio depois de passar pelo impacto da internet?

Para Levy, no futuro haverá a utopia do pensamento único, no qual todos terão acesso às informações e ao conhecimento. Entretanto, é sabido que nem todos terão acesso a estes serviços do mesmo modo e ao mesmo tempo. Mas para o autor, estes obstáculos seriam superados em breve pelo barateamento das tecnologias. Pierre chama a atenção para a tecnocracia, na qual o ser humano poderia virar escravo de sua própria criação.